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Isso eu vi, isso eu vivi, isso me contaram...


AQUELAS MULHERES

DAS ÁGUAS TERMAIS


Professor Vingt-un Rosado: fina ironia

O saudoso prefeito Dix-huit Rosado dizia em seus discursos cheios de lirismo que as águas termais de Mossoró deixavam as mulheres mais bonitas. Bem, esse é apenas um detalhe do nosso relato.

O governador era Garibaldi Filho, bombando com o discurso de que a adutora que canalizava as águas da barragem Armando Ribeiro Gonçalves, em Assu, seria a solução para resolver os problemas da falta d´água em Mossoró. Eu namorava Leila, figura doce e terna, que ainda me deu a oportunidade de ter uma convivência mais aproximada com o seu pai, professor Vingt-un Rosado, o cara da Coleção Mossoroense, que, certamente, hoje, deve estar botando muito santo para lançar livros nas casas de culturas celestiais.

Era uma tarde de encerramento da festa de Santa Luzia. Muita gente povoando o centro da cidade e ruas transversais, caravanas chegando dos municípios vizinhos, romeiros, pagadores de promessas, políticos, enfim, aquela mistura de todas as raças e de classes sociais.

Vingt-un havia acabado de deixar a UTI do hospital Wilson Rosado, rotina alternativa que cumpria há anos antes de sua morte, já fazendo parte da sua efervescente e intensa vida. Era recebendo alta hospitalar e já caindo em campo com uma disposição célere e a mente completamente em dia.

Antes mesmo de se acomodar em casa, cismou de assistir à procissão, opção da qual ninguém lhe convencia ao contrário.

E lá fomos nós, eu, ele, Leila e a singela Dona América. Uma luta para atravessar a multidão e o trânsito confuso de carro e outra batalha para conduzir Vingt-un, em passos lentos, até um local onde ele pudesse assistir tranquilamente ao desfile da corrente humana de fé e devoção, acompanhando a imagem da padroeira.

Colocamos duas cadeiras na calçada da Loja Cirne Pneus, sentido lateral do supermercado Rebouças, e ficamos postados por trás, em posição de proteção. As notícias eram de que a santa ainda estava pras bandas do bairro Boa Vista, portanto, iria demorar a passar naquele ponto. Mesmo assim, o movimento era intenso, de homens, mulheres, crianças, vendedores de adereços e de água mineral, de um lado para outro, naquele vaivém.

E a gente lá, no meio daquela impaciência festiva. Vez ou outra, um comentário sobre algo a nossa frente, um toque sobre algum acontecimento político daquela conjuntura, até como forma de moer o tempo de espera.

Frederico Rosado, deputado estadual e neto de Vingt-un, ainda permanecia nos quadros do PMDB, mas meio brigado com o governador Garibaldi por conta dessas coisas de aliados. E Vingt-un não escondia uma ponta de mágoa. Todo Rosado é muito sentido, você sabe.

Pois bem, continuávamos naquele blá-blá-blá. De vez em quando eu me curvava para atender um chamamento de Vingt-un para repetir algum comentário ao seu ouvido, devido a zoada e ao seu problema de audição.

Eis que desce das bandas do bairro Santo Antônio, pelo Alto do Louvor, a antiga rua dos cabarés, um grupo de mulheres meio desprovidas de beleza e desengonçadas. Vingt-un observa o quadro e simultaneamente faz o chamamento para dizer alguma coisa. Quando eu me aproximo, ele sapeca a fina ironia realçando a velha frase do seu irmão burgomestre: “Dix-huit dizia que as águas termais de Mossoró deixavam as mulheres mais bonitas. Aí veio essa água da adutora, misturou tudo, olhe aí o resultado”, e apontou levemente para as meninas, fazendo um sorriso irônico bonachão.


2 comentários

Herbert Mota disse...

Gilberto, meu caro amigo, do lado de cá, por enquanto, só tenho que te parabenizar por teres, finalmente, aderido ao 'bloguismo'. Pode computar, ai, um 'ledor' perene. Sucesso... você merece.
Herbert Mota

Chico Adolfo disse...

Olá Gilberto,
acho que vc será um marco nessa blogosfera.
Começar com um fato pitoresco com Vingt-un Rosado, figura da mais alta respeitabilidade da nossa terra é coisa que só você, que desfrutou da intimidade da família, pra contar tal fato.
Parabenizo também pela lembrança da querida e irreverente Gaciana com seu louro Gilberto, pessoa humilde, cativa e que, apesar das adversidades da vida, faz dela uma eterna celebração a felicidade.
Vá em frente amigo, sei que empecilhos surgirão, mas de que vale a vida sem os tê-los?
Forte abraço.
Chico Adolfo