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Isso eu vi, isso eu vivi, isso me contaram...

O CERCO

Foto: Edilberto Barros

Ivani (de óculos) com amigos em São Cristóvão


Por Gilberto de Sousa


Ivani Rolim é um amigo de longas datas e de muito apreço. Uma das características do seu conjunto de valores é ser espirituoso, além de um boêmio centrado. O centrado aí, digamos, é apenas para amenizar o texto. Hoje ele desfruta muito bem do seu tempo vago, da exuberante praia de São Cristóvão, no litoral areia-branquense, sua terra natal, mas há tempos, uma das nossas praias preferidas era Peixe Gordo, em Icapuí (CE), a cerca de 12 quilômetros de Tibau (RN), na divisa, onde a gente passava o final de semana na residência de familiares.

Houve um tempo em que além da beleza indescritível de Peixe Gordo na companhia de outros amigos, um dos ingredientes desse lazer era o bar Morro do Chapéu, de Alex Rosado, um lugar muito bem transado em frente ao mar. O recanto lotava nos fins de semana, enquanto nós nos dividíamos entre a praia e os alpendres da casa grande, na vila, a um quilômetro do mar.

E em um desses finais de semana prolongados, estávamos nós, junto com outros amigos, em casais, entre churrasco e viola quando faltou cerveja. Prontifiquei-me de ir comprar em Tibau junto com Ivani. Foi um pé lá e outro cá, até para não deixar que a farra sofresse solução de continuidade.

É tanto que lá pelas 8 da noite, todo mundo já estava se acomodando para dormir, em consequência do peso etílico do dia. Eu, Ivani e outros marmanjos armamos nossas redes nos alpendres e continuávamos a conversar esperando o sono que não demoraria a chegar. Além do que estava por vir.

Era por volta das 5 horas da manhã do dia seguinte, quando a polícia do Ceará cercou a casa grande. Uns 20 ou 30 soldados fortemente armados que chegaram em quatro carros faziam o maior barulho. Arregaçando, como diria o lendário do lugar, Chico Bigode.

Meu sogro, a época, Chiquinho Belarmino, foi o primeiro a sair da casa com as mãos para o alto, enquanto o comandante da tropa perguntava de quem seria aquele Kadette estacionado em baixo de uma frondosa tamarineira.

- É do meu genro, ele está dormindo ali.

Respondeu assombrado.

Era o meu carro, o mundo estava caindo e eu roncando, enquanto Ivani ao lado na outra rede, certamente já acordado, mas enrolado de pé à cabeça, inerte até então.

Ao receber outro comando, meu sogro se aproxima da minha rede e tenta me acordar.

- Gilberto, o que foi que você fez homem, que a polícia está lhe procurando?

Eu acordei desorientado com aqueles policiais apontando pra mim com metralhadora e tudo mais, passei as mãos no rosto para atenuar a ressaca e apenas olhei para os homens sem entender o que estava acontecendo.

- Onde você estava ontem?

Perguntou o chefe do comando.

- Fui a Tibau e retornei.

Daí logo eles perceberam que eu não era o bandido o qual eles estavam procurando e foram descansando as armas. Mais ou menos refeito, eu perguntei de que realmente se tratava.

Havia sido um assalto ao posto fiscal de Mata Fresca, na divisa entre os dois Estados, quando os bandidos fugiram em um Kadette da cor do meu. Teria sido um carro tomado em Mossoró, se eu não me engano, do advogado Marcos Araújo.

E enquanto eu conversava da rede com os policiais, do outro lado da cerca, escutando tudo por debaixo do lençol, Ivani bota a cabeça de fora da rede e diz pra mim, parecendo abusado: “Gilberto, entregue logo esse dinheiro, homem, para acabar com essa confusão...”

E mesmo naquela seriedade fardada, alguns PMs não tiveram como esconder o sorriso.


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