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Isso eu vi, isso eu vivi, isso me contaram

FALTA D’ÁGUA, UM CASO DE POLÍCIA

Parte da equipe de O Mossoroense em momento de confraternização.
Otoniel Maia de óculos e braços cruzados

Por Gilberto de Sousa

Já próximo do final da década de 80, quando eu editava o jornal O Mossoroense, me espelhava nos jornais dos grandes centros, procurando formas de conter despesas e liberar mais cedo a Redação nos finais de semana. Normalmente nos sábados, a gente fechava a edição de domingo, entrando pela noite e, às vezes pela madrugada, devido até a forma artesanal.

Ainda era tempo da máquina de datilografia e dos títulos à base da linotipo, uma antiga compositora mecânica, onde Cosme, o famoso Vovô, juntava as matrizes “letrinhas” em moldes para gerar o título indicado pelos editores.

Ninguém reclamava, pois apesar das dificuldades, o trabalho era realizado com muito amor, embora praticamente só contássemos com o domingo como folga. Foi, então, que, mesmo diante das dificuldades ousei fechar 90% das edições de domingo na sexta-feira, como se faz hoje, de modo mais tranquilo.

Imagine a agonia e o alvoroço para se vencer esse desafio. Mas dava certo, ou quase.

Minha Redação era dez. Nilo Santos editava Política, Sérgio Oliveira pilotava as matérias Gerais ao lado de Josi Marques, César Santos no comando do Esporte, e Otoniel Maia fechava a área policial. O eterno fotógrafo era Luciano Lélys. Na diagramação Paulo César, José Antônio e Ernegildo. Depois foi que chegaram os estagiários Paulo Procópio e William Robson para a Redação.

Sem o recurso da informática, a busca por matérias merecia um esforço muito grande dos repórteres. E nesse contexto, a área policial era uma das mais complicadas.

É tanto que num desses fechamentos, eu girava pela Redação e percebi que Otoniel Maia havia colocado o papel na máquina, mas não escrevia nada, enquanto o restante da Redação corria no ritmo frenético do tic-tac das máquinas. Ele começava a matéria e depois rasgava a folha, jogava no cesto e colocava outra. Repetiu o gesto várias vezes.

Assim como os outros repórteres, ele também estava tentando terminar mais cedo para ir para Tibau, já que era período de veraneio. Muito íntimo do deputado Vingt Rosado, Otoniel Maia não perdia um domingo a rodada de bate-papo com Vingt em Tibau.

Aproximei-me de Otoniel e perguntei. “E aí, nada de novidades?”.

Ele ficou meio enigmático, como se tivesse uma ideia naquele momento e começou a datilografar.

Quando eu olhei, ele estava começando o texto: “A falta d’água em Mossoró está um verdadeiro caso de polícia...

_ Ô Otoniel, tá certo que a página é de polícia, mas não tem nada a ver você puxar a falta d’água para o lado policial...

Quem estava por perto caiu na risada.

É certo que ele pegou pressão, repercutiu algumas matérias genuínas da área e acabou fechando a página.

E no sábado, logo pela manhã, se largou para Tibau já conduzindo as edições de sábado e a de domingo.

Certo que estava abafando, como se diz, entregou as duas edições a Vingt Rosado.

- Que é isso Otoniel, hoje é sábado e você já está com o jornal de domingo? Vingt surpreendeu-se e apelou.

Protestou depois junto a Laíre Rosado, que era o diretor do jornal e assim a gente teve que voltar ao modelo original, de ficarmos o sábado trabalhando para o jornal dominical.

Otoniel jogou água no projeto. Mas ele estava certo, a falta d’água naquela época já era um caso de polícia.


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