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“O RN pode ser trampolim para o desenvolvimento”

“O RN pode ser trampolim para o desenvolvimento”

 Com o anúncio do primeiro vôo exclusivamente cargueiro para o Rio Grande do Norte, se renovam as expectativas da indústria potiguar. A rota, que interligará Natal à África e Europa, será operacionalizada pela Lufthansa a partir do próximo domingo (7) – inicialmente por quatro semanas, mas com possibilidade de consolidação. A expectativa da Superintendência da Receita Federal é que até 80 toneladas de frutas frescas sejam transportadas para a Alemanha semanalmente.
Porém, o presidente da Federação da Indústria do Rio Grande do Norte (Fiern), Amaro Sales, avalia que a retomada da indústria e das exportações ainda depende da resolutividade de outros entraves, como a estrutura de acesso ao aeroporto, o desenvolvimento da infraestrutura do entorno do terminal e a melhoria no acompanhamento fitossanitário para as exportações. Um dos pontos, para o presidente, seria a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Macaíba, que ainda não saiu do papel.
Nesta entrevista, Sales analisa como o aeroporto poderá impulsionar a indústria e o turismo caso o RN resolva o seu maior problema: infraestrutura. As potencialidades do turismo serão discutidas na próxima segunda-feira (8), durante o seminário Motores do Desenvolvimento, no Versailles Recepções.
O que a indústria esperava do aeroporto neste primeiro ano?
O equipamento, desde a sua concepção, foi desenhado como um hub para cargas e passageiros. Quando da sua realização do leilão, havia na minha cabeça o uso de carga e passageiro. Mas, diante das dificuldades existentes, a parte da confecção de carga que seria um alento para a indústria potiguar, o uso ainda é muito incipiente, ocioso.
Por que?
Diante de um aeroporto que foi concebido assim, mas não concluído, não se espera um uso completo. Sejam os acessos ou a indústria no entorno. Foi criada uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE de Macaíba) para atrair a indústria, mas ela ainda não saiu do papel. Além disso, dos três acessos divulgados só temos um, que não funciona plenamente. O acesso via Macaíba é cheio de buracos. Você imaginar que um aeroporto criado neste modelo ainda não está acontecendo? Então, há de se comemorar que, segundo a própria Inframérica, aumentou em 9% a movimentação de passageiros. O nosso aeroporto tem tudo para contribuir com o turismo do Rio Grande do Norte.
O que falta para que esse distrito industrial se desenvolva?
Em 1940, o estado foi o trampolim da vitória, e agora pode ser trampolim para o desenvolvimento. No sistema de hub da Latam teremos um investimento de R$ 4 bilhões e em qualquer lugar do mundo isso seria um trampolim para o desenvolvimento. O RN é produtor do ICMS de aviação. O governo do Estado deveria fazer uma embaixada junto à Petrobrás para baratear o custo do combustível no Rio Grande do Norte, através de uma logística de entrega mais competitiva. São ações desse tipo que podem melhorar o desempenho do aeroporto.
Podemos esperar um retorno em desenvolvimento em cinco, dez anos?
Não, um equipamento desse porte se desenvolve de três a quatro anos. Ele cria um ambiente de negócios, de participação efetiva do aeroporto. Se você observar o aeroporto há um ano atrás, ele já mudou o cenário da própria população – talvez ainda não de comércio e indústria– , mas o valor da exploração imobiliária, então você já cria um ambiente de negócio.
A indústria potiguar possui produção suficiente para manter o transporte de cargas?
Hoje, o RN possui duas cargas: o atum fresco, que só o estado produz, e é de excelente qualidade. O meca também; Há ainda a parte de camarões frescos; o agronegócio, através de frutas que podem ser transportadas. Temos produtos que têm características de serem frescos, e fica diferenciado no mercado.
A indústria da pesca afirma que, neste primeiro ano, tem utilizado outros aeroportos...
Porque o desembaraço aqui, como não temos esta característica aqui, o embarque e desembarque de frutas e camarão, pescado, precisa ter uma licença sanitária que o Ministério da Agricultura libere. Mas o problema é que não temos como liberar se não temos o profissional desta área trabalhando. Então, se vai criar um ambiente com voos diários para Europa e América, é preciso criar um comitê fitossanitário que possa fazer o acompanhamento adequado destas cargas.
Especialistas em logística apontam que o RN tem muitas deficiências estruturais que impedem a atração do hub...
Eu ainda acredito que ele vem para cá. Se for uma decisão técnica eu não teria dúvida nenhuma. A possibilidade de crescimento, é uma área menos congestionada que os aeroportos de Recife e Fortaleza; a parte de subsídios nós temos uma oferta maior, até porque produzimos o querosene de aviação; temos uma parte de qualificação profissional do Sesc, Senac e Senai. Uma empresa como a Latam busca um custo mais competitivo.
O problema é que você não tem a conexão entre porto e aeroporto.
Eu escutei nesta semana que esta conexão não precisa, necessariamente, acontecer. Se você tem o transporte de cargas no porto e no aeroporto, você vai fornecer para o seu concorrente? Não são palavras minhas nem estudos da Fiern, mas há comentários de que há uma competição entre porto e aeroporto.
Mas são cargas completamente distintas.
Depende. Você carregar um atum de navio, se tiver 30 dias para entregar, você entrega; se for para entregar rápido, vai de avião.
Então o senhor acha que não é necessário?
A carga que chega ao porto não é, necessariamente, a que o avião transporte. Então, não. Uma pá de um aerogerador eólico não vai ser nunca transportado por avião, sempre em navio. Mas você carregar um produto fresco como atum, é por avião.
Há necessidade de uma interconexão modal, como a ferroviária?
O estudo do Mais RN, organizado pela Fiern, aponta que esta conexão ferroviária é necessária ao RN. Até porque temos 50 quilômetros de ferrovia, mas são necessários 500 quilômetros para o transporte de cargas. O estado não é forte em mineração porque não tem uma grande ferrovia que possa transportar? Isso quem pode dizer é um estudo, e o Mais contempla um anel ferroviário, mas é preciso aprofundar o estudo.
A infraestrutura rodoviária do estado impede o desenvolvimento da indústria potiguar?
Veja bem: a indústria do RN acontece em dois polos. No litoral e na região do Alto Oeste. As estradas que temos maior ligação Natal-Mossoró é a 304, e temos algumas ligações na 101 que há essa interligação. Nas estaduais há uma certa preocupação porque quem faz a manutenção é o Estado. Existem reclamações, mas não pontuais.
Como o senhor avalia a crise econômica de 2015? Ela se perpetuará no ano que vem?
Não é que ela vai continuar, mas como diz o ministro Joaquim Levy, não estamos em crise, mas em ajustamento. Queria compreender isso melhor. Eu acredito que, com este momento, se reflete em um ano de adaptação da indústria em 2015, um ajuste em 2016 e retomada em 2017. Mas isso o empreendedor pode encontrar saídas, procurar novos mercados e produtos que ele poderá investir. Há setores mais complicados, como a construção civil, que teve corte do principal programa, o Minha Casa Minha Vida.
O dólar em alta não cria este momento de oportunidade?
O dólar em alta depende, pois há indústrias que possuem seus custos dolarizados, então você não tem como fazer esse equilíbrio. Se for para vender, é melhor, mas para comprar insumos você se prejudica. Hoje, a indústria têxtil também passa por ajustamento. No ano passado, recebeu uma desoneração para se tornar mais competitiva, e agora foi retirado. Então uma indústria que planejava os custos em 2015, tem acréscimo de 2%. É essa insegurança que compromete que o planejamento do empresário.
O RN se mantém competitivo, mesmo dentro das limitações?
O RN tem grandes oportunidades para novos negócios, temos quase 200 novas, segundo o Mais RN. O próprio Banco do Nordeste já nos disse que temos, liberados para projetos no estado neste ano, R$ 300 milhões em projetos. O estado tem uma graça natural.
Fonte: Tribuna do Norte